Depois do cansaço do primeiro dia, resolvi ir mais tarde para o segundo dia do SWU, peguei a van das 16h30. Foi bom, pois escapei de uma chuva torrencial, a mais forte do festival.
Dia meio maluco, não havia um estilo definido, um verdadeiro samba do criolo doido.
Mas o resultado é que entrei na área dos palcos principais ao som de uma versão arrepiante de Uptight do Stevie Wonder, sem entender nada. Era a Tedeschi Trucks Band, que depois descobri ser de Jacksonville, Florida, onde fiquei uma semana fazendo um curso de TI. Impressionante que de uma cidade tão normalzinha saia uma banda tão legal. Se intitula uma banda de rock e blues, mas eles mandam muito bem na soul music. Fecharam com "I Want to Take You Higher", do Sly & The Family Stone, em versão racha-assoalho legal. Pelo telão, não consegui ver se a loira da guitarra era realmente bonita, mas já me apaixonei.
Na sequência, desci para o palco alternativo para encontrar alguns amigos do Rio. Acabei perdendo o barraco da equipe do Ultraje com a do Peter Gabriel, um dos pontos altos do festival... Peguei metade do show de uma banda chamada "!!!" (me disseram que pronuncia-se "tick tick tick"). Muito boa, o vocalista é uma bicha tresloucada que dançou e requebrou de todo jeito, surfou na maca dos bombeiros, desceu do palco e levou a galera ao delírio, sob o som de indie rock da melhor qualidade. Engraçadíssimo. Aquele tipo de apresentação que, depois que acaba, tá todo mundo dando risada, feliz.
Na sequência, provavelmente a banda mais alinhada à proposta do festival: Playing for Change. Músicos de vários países se juntam para passar uma mensagem de esperança para o mundo, ou seja, galera super cabeça, tudo a ver. Mas fora a ironia, a banda é boa mesmo. Uma mistura de reggae, cajun music e afromusic de boa qualidade, com versões competentes de "Gimme Shelter" dos Rolling Stones e "Sittin' in The Dock of the Bay" do Otis Redding. O vocalista cego de New Orleans, Granpa Elliot, é uma atração à parte. A cara do Tio Barnabé.
Mas não assisti à apresentação toda, pois estava ligado no boato de que o Neil Young, inexplicavelmente levado ao festival apenas para participar de debate sobre sustentabilidade (outra aparente pisada da organização, nenhuma das justificativas que ouvi eram convincentes), daria uma palhinha no show do Chris Cornell. Pra quem não sabe, Chris Cornell liderou bandas muito boas, como Soundgarden e Audioslave, mas no SWU daria um show acústico... Pensou "hmmmm... será?"... acertou. Como era de se esperar, a apresentação só fez a gente ficar imaginando como seria com banda. A versão de "Black Hole Sun" foi emocionada, mas não conseguia levantar a galera. Este tipo de show mais "intimista" ficaria melhor no palco alternativo.
E vamos para o momento nostalgia da noite: Duran Duran. Admito. Me amarro em Duran Duran. E estava perfeito, assistiria ao show do Duran Duran enquanto rolava o Modest Mouse no palco alternativo, aí eu desceria pra ver o Hole, da Courtney Love. E estrategicamente perderia o show do Peter Gabriel, ó que beleza. E o indefectível cabelo branco do Nick Rhodes invade o palco ao som de "Planet Earth". Delírio da galera quarentona. Seguido de "A View to a Kill". Um momento para reflexão: ao ver o Simon Le Bon gordinho, em um blazer de lantejoulas e bigodinho no estilo "latin lover", já escolhi meu candidato para o papel do Albin Mougeotte em uma eventual continuação de "Gaiola das Loucas". Mas no meio do momento Bond, James Bond, recebo um SMS fatal: Modest Mouse cancelou a apresentação (parece que os instrumentos não chegaram a tempo... esquisito...) e o Hole já estava no palco. E agora? Duran Duran ou Hole? Resolvi a dúvida ao ouvir o nosso amigo Simon anunciar que tocaria uma música do novo disco. Caceta, algumas bandas deveriam ser proibidas de gravar disco novo. Quem quer ouvir um novo hit do Duran Duran?? Toca uma hora de "Wild Boys" direto que todo mundo vai gostar muito mais!! Depois fiquei sabendo que não tocaram "Save a Prayer". Ainda bem que eu não estava lá pra ver este momento decadente.
Cheguei no palco alternativo e a Courtney Love estava mostrando toda a sua doçura e delicadeza. Ao contrário da maioria das bandas estrangeiras, ela não se preocupou em decorar algumas frases em português. Mas se você entende o significado de "Suck My Dick" e "Fuck You Motherfucker", está apto a entender 90% da mensagem que ela tem a passar. A banda é boa, guitarra suja como manda o figurino, bateria pesada, foi o momento mais punk do festival (aproveitando, senti falta de representantes de punk rock autêntico...). Mas entre uma música e outra ela fala pacas, xinga um monte de gente, e faz a alegria da galera que quer mais é ver o circo pegar fogo (eu incluído). Um detalhe bizarro eram as "hot dancers": quatro meninas com vestidos saídos de um filme do Tim Burton se balançando no melhor estilo "o que que eu tô fazendo aqui mesmo? ". Mas a Courtney pagou peitinho, xingou o camarada com um cartaz do Kurt Cobain (Eu fui casada com ele, não você!!), vestiu a camiseta jogada por uma fã com os dizeres "Courtney, Be My Bitch!!!" e fez a cena máxima quando um gaiato mostrou um cartaz falando pra ela devolver o dinheiro do David Grohl. Aí ela mandou todo mundo ir tomar naquele lugar e foi embora, com pouco mais de meia hora de show. Uma das hot dancers voltou pra falar (aí que eu descobri que eram brasileiras): "pô, meu, é pra falar que gosta do Hole, e não do Foo Fighters!". Ela voltou (lógico que ia voltar), mas só depois de ouvir o povo entoar "Foo Fighters Gay" em uníssono. Hahahaha... rock'n'roll é isso, galera.
Agora, certamente o Hole merecia um lugar nos palcos principais. Tinha gabarito e barraco o suficiente pra isso.
E com o fim do palco alternativo nesta noite, as atenções e voltavam para o show do Lynyrd Skynyrd. Mas a apresentação do Peter Gabriel com a tal da The New Blood Orchestra estava apenas começando... Antes do festival, quando eu vi o line up, desconfiei que o show do Peter Gabriel ia ser chato, só não imaginava o quanto. Sentei na frente do palco do Lynyrd Skynyrd e fiquei vendo pelo telão. Meu Deus, quem foi que teve a ideia de jerico de trazer este homem para um festival deste tipo?? No dia seguinte, ouvi comentários positivos de gente que viu pela TV e achou lindo. Talvez eu gostasse do show na sala Villa-Lobos, saindo de casa uma hora antes, sentando em uma poltrona acolchoada... Mas ao final de um dia de festival, com programação atrasada, sabendo que Lynyrd Skynyrd só estava esperando aquilo acabar, foi uma verdadeira tortura chinesa. Uma orquestra completa, tocando os clássicos de world music do Peter, intercalados por declarações mal decoradas em português... Ainda aparece a Didi Wagner pra ler um texto pra ele. O pessoal do outro palco entrava em desespero, pânico total: "Só falta ele querer apresentar a banda, um por um...", "pô, gastaram uma grana pra trazer 50 caras pra cá... o White Stripes são só dois!!!"... e aí vai...
Finalmente acaba o sofrimento e o Lynyrd Skynyrd entra pra salvar o dia. Rock clássico, trio de guitarras afiadíssimo, bateria precisa, vocalista carismático, tudo perfeito. "Simple Man" e "Sweet Home Alabama" não deixaram dúvidas de que era o melhor show do dia. Fechou o bis com "Free Bird", e todo mundo foi pra casa com a alma lavada. Até esqueceram da continuação do eterno boato do Neil Young dando palhinha em algum momento...
Bom, agora só falta o último dia, quando o bicho realmente pegou de vez!!
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