Todo mundo sabia que o terceiro dia ia ser pedrada. Atração interessante das 14h às 3h da manhã, ou seja, tinha que tirar energia de onde fosse possível. E o peso das atrações já mostrou sua diferença do lado de fora. 13h30 já tinha muita gente chegando. Não fui atrás de números oficiais, mas a impressão que tive foi que no terceiro dia havia mais gente do que nos dois anteriores juntos. Um ponto negativo foi a chuva, que apesar de não ter sido forte em momento algum, foi constante. E formou o lamaçal absurdo que eu já comentei em outro post.
E chegamos relativamente cedo pra ver o show dos Raimundos. Banda da terrinha, toquei em eventos juntos com eles na época em que ainda faziam cover dos Ramones, e hoje eles vêm tentando nobremente se recolocar no cenário top do rock Brasil. Só que a quantidade de gente chegando junto nos fez perder quase 40 minutos na fila de entrada. Tudo bem que tem que revistar as bolsas da galera, mas nitidamente faltava um pouco de agilidade da equipe de apoio. O resultado é que quando chegamos em frente ao palco eles estavam começando "Eu quero é ver o oco", última música do set list. Mas foi o suficiente pra perceber que estavam fazendo bonito. A cara de felicidade do Digão ao despedir da turma dava uma boa pista.
Bom, o jeito é ir conhecer o trabalho do ex-baixista do Guns'n'Roses, Duff McKagan, com a banda Loaded. Os caras são tecnicamente competentes, o som é legal, mas fora uma meia dúzia de gatos pingados no gargarejo, era claro que a maioria da platéia não conhecia música nenhuma, e isso costuma complicar a maioria dos shows. Não comprometeu, mas não chegou a animar.
Eu conhecia pouco da Black Rebel Motorcycle Club, que entrou tocando um som que me lembrou uma mistura de White Stripes (até pela formação, uma mulher tocando forte a bateria) e Morphine, ou seja, um som que consegue ser pesado e denso ao mesmo tempo, com constantes variações de ritmo. Gostei muito, mas não senti muita firmeza na reação do pessoal. Acho que ainda estava cedo...
Antes do show do Down eu havia estranhado a quantidade de gente com camiseta do Pantera, achei que fosse uma simples coincidência. Depois me esclareceram que o vocalista Phil Anselmo já foi do Pantera. E metal é sempre uma realidade paralela, há legiões de fãs de bandas que quem não é do ramo nunca ouviu falar. Foi a primeira banda a realmente mexer com a turma (ou pelo menos com boa parte dela) no terceiro dia. O som deles é agressivo e bem executado da maneira que o público do metal espera, e o que se via da arquibancada eram muitos punhos cerrados marcando o ritmo de cada música. Marcou presença.
Haviam me falado bem do tal 311, mas confesso que não entendi qual é a da banda. Entraram tocando um rap branco adocicado, que iniciou com volume baixo (trazendo de volta o fantasma do primeiro dia, era o mesmo palco "Energia") e causando estranhamento ao público que não conhecia, dado o clima meio adolescente. O jeitão "Dinho Ouro Preto" do vocalista principal não ajudava, a voz fina do outro menos ainda, e a minha impressão inicial remeteu a bandas recentes tipo Maroon 5, apesar de saber que eles já tem estrada. Não me convenceu, e acho que poderia ter trocado de lugar com o Simple Plan, escalado pra fechar a noite no palco alternativo, e que, apesar de também ter um apelo meio adolescente, me parece ter mais nome e público para o palco principal (apesar de que não assisti ao show deles, mas ouvi falar bem).
Agora vamos à primeira banda ansiosamente aguardada da noite: Sonic Youth. Putz, isso é som. Anarquia total, muito barulho, muita microfonia, agressividade e estática se revezando de uma maneira difícil de descrever. É uma banda da geração anterior, mas que deixa os mais novos intrigados. O público se comporta com uma mistura de admiração, hipnose e incômodo, alguns sem entender direito o que estava acontecendo no palco, mas sem coragem de se manifestar contra. O Pixies, apesar de muito menos anárquico, havia criado um clima semelhante no SWU do ano passado. Pra mim, um dos três melhores shows do festival. Vida eterna às guitarras arrastadas no chão!!
E, ainda meio tonto com a pancadaria sonora, fui para o Primus, outra banda que eu conhecia pouco. Mas eles marcaram presença com louvor. O contrabaixo do Les Claypool é impressionante, gerando um som que lembra um rock progressivo com muito balanço, quase um funk no estilo Parliament em alguns momentos. Babei nos caras. Havia planejado sair pra comer alguma coisa no show deles mas tive que ficar até o final.
Bom, dado o que vinha depois, tive que sair pra lanchar no show do Megadeth. Gosto de metal, mas muito mais do que viria depois. Ouvi duas músicas, executadas com a competência de praxe, e quando voltei ouvi muita reclamação dos fãs de que 1 hora de Megadeth não dá nem pro tira-gosto. E provavelmente eles têm razão.
Costuma ser padrão, mas é sempre divertido ver o Scott Weiland, do Stone Temple Pilots, entrando no palco de terno, gravata, óculos escuros e megafone na mão. Me lembrou os caras do The Jam, e repetiu a performance de ir jogando fora o excesso à medida em que o show ia esquentando. Eles tocam como quem gosta de tocar de verdade, sem medo de ser feliz. Colocaram a galera pra pular, com os hits que todo mundo aguarda (destaque para os clássicos "Plush" e "Big Bang Baby"). Bom demais. Sem surpresas, mas bom demais.
Apesar de ter pego carona na onda do grunge, sempre considerei o Alice in Chains uma banda de hard rock. E agora com o novo vocalista, Willian DuVall, acho que esta impressão ficou mais forte, apesar de ser comum cantor negro tender a tornar a banda mais suingada. O repertório atual deles tem muita balada, o que tornou o show de 1 hora e meia um pouco cansativo (e considerando também a maratona até então). Quando o povo começava a dar sinais de cansaço, "Man in the Box" conseguiu mantê-lo ativo por mais meia hora. Foi bom, mas teria sido melhor se tivesse sido mais curto.
Em um dia de bons shows mas pouca surpresa, o Faith no More fez a diferença. Estava todo mundo muito cansado, quando entrou um legítimo representante da cultura pernambucana discursando sobre uma biblioteca que seria desativada mas que ele ia brigar para mantê-la. Beleza, tem nossa força, mas quem é esse cara, e isso é hora de subir no palco pra falar disso? Acho que ninguém se mancou que era o início do show dos caras (o rapaz voltaria mais tarde com mais um discurso incendiado), que devem ter ouvido as reclamações da Cláudia Leite sobre as bandas estrangeiras e resolveram atendê-la. Todos os componentes da banda entraram com roupas brancas largas, usando vários colares coloridos, e o palco era todo branco (até os amplificadores cobertos com toalhas brancas), com flores de vários tipos espalhadas no chão. Ou seja, um autêntico terreiro de umbanda com seus pais de santo encarnando o melhor do rock. Mike Patton pegou aulas intensivas de palavrões em português e não passava meia música sem mandar um. "King for a Day" foi adornada por um coro inusitado de "Porra! Caralho!"... Fechando o set principal, trouxe o "Coral de Crianças de Heliópolis" para acompanhar "Just a Man", e emocionou muita gente. Showzaço, fechou com chave de ouro o festival. No dia seguinte uma amiga reclamou a ausência de "Falling to Pieces" no set list. Putz, sabe que o show foi tão bom que eu nem me manquei??
Ano que vem, se o line up for compatível com o deste ano, estaremos lá de novo!!
Olá Karlei, eu estive no último dia do SWU, chgeuei junto com o Sonic Youth (fui lá por eles, o que tornou tudo mais especial pois foi o ultimo show!). Cara, ótimas palavras, matei o Megadeath pra comer também, e nem senti falta! Concordo com tudo o que você disse! Muito bem colocado! O que foi o show do Faith no More não sei... só sei que depois do dia 14/11 já o assisti mais umas 5 vezes, e me emociono e me arrepio como se eu ainda estivesse lá... de capa... com chuva e calor! Até o próximo SWU!
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